Notícias
03/06/2008 - 19:25
Artigo: Ensino de botânica voltado à educação ambiental na Bacia do Apa

Coleta de plantas para identificação científica em Bela Vista (MS)
 

Introdução

“Não salta, não brinca, não corre, não faz festinha para o dono... NÃO TEM MÚSCULOS! Como alguém pode gostar de algo tão inerte?!” – Msc. Miguel José Minhoto.

Para muitos professores de Ciências e Biologia do Ensino Fundamental e Médio, é um desafio cotidiano despertar em seus pupilos algum interesse pela Botânica. Não é à toa. Plantas geralmente não são dotadas do carisma da grande capacidade de movimentação concedida aos animais (Minhoto 2002). Porém, mais do que despertar o interesse dos alunos pelo estudo das plantas, é urgente estimular os estudantes na aplicação deste conhecimento para atuar na conservação e preservação ambientais. Este breve artigo vem propor estratégias e sugerir idéias para que a Botânica aplicada à Educação Ambiental possa ser utilizada em escolas de Ensino Fundamental e Médio, na região da Bacia do Apa.

Para Gostar da “Plantaiada”: Despertando nos alunos o interesse pela Botânica

Uma estratégia inicial é fazer com que os estudantes enxerguem a importância econômica dos vegetais. Isso pode ser feito trazendo-se para a sala de aula frutas, legumes e verduras, fazendo uma divertida aula de culinária (com direito aos alunos comerem o material de estudo)! acompanhada de explicações sobre os tipos de vegetais. Por exemplo, pode-se explicar qual a diferença, em termos de fruto (na linguagem botânica), entre um abacaxi, um abacate, um caju e uma maçã. Nesta fase, já é possível apresentar aos alunos rudimentos dos conceitos de órgãos vegetais e seus tipos.

Depois, vegetais úteis em outras áreas que não a alimentação podem enriquecer a aula. Por exemplo, visitas a uma praça ou ruas bem arborizadas da cidade podem ser muito úteis para que os estudantes reconheçam a importância das árvores e arbustos na arborização e climatização da cidade. Podem ser reconhecidas algumas das principais espécies utilizadas na arborização brasileira, e os conceitos de nome científico, fenologia e as famílias botânicas mais importantes, cada uma com suas principais características. Existem, em todo o Brasil, guias de identificação das árvores plantadas em determinadas cidades contando com ilustrações e informações científicas, sendo que a escola ou o professor seriam os responsáveis por adquirir um exemplar desse material. Em Campo Grande, MS, Pestana et al. (2006) efetuaram um levantamento das principais espécies arbóreas utilizadas na arborização da porção central deste município e elaboraram uma chave de identificação (um recurso que permite a pronta identificação das espécies por meio de questionamentos do tipo “sim ou não”) para as mesmas. Projetos similares podem ser desenvolvidos nos municípios envolvidos, e os trabalhos já realizados, utilizados como base parcial para as aulas.

Nessa etapa, é importante destacar detalhes aparentemente sem importância, porém fundamentais na identificação botânica, tais como: características da folha (formato, tipo de borda, ponta e base, pilosidade, etc.), da flor (coloração, número de pétalas, estames e carpelos, tipo de flor ou inflorescência [isto é, agrupamento de flores], etc.), do tronco ou caule (textura, diâmetro, eventuais marcas no caule, etc.), presença de látex (o “leite” que escorre de algumas plantas), arquitetura da copa, arranjo das folhas nos ramos, etc. Caso a escola, o professor ou alguns alunos disponham, é interessante que sejam levados para o trabalho lupas, tesouras de poda e sacos plásticos resistentes e transparentes, para melhor observação do material botânico e possível coleta para análise mais detalhada na escola.

Finalmente, podem ser feitas visitas a reservas, fazendas próximas e parques florestais, caso estes existam, para que plantas nativas da região possam ser observadas em seu habitat natural. Deve-se explicar, então, porque as espécies nativas são importantes para o bioma local, apesar de talvez não serem tão saborosas quanto as frutas ou tão bonitas quanto as árvores da cidade – exceto, é claro, os frutos deliciosos nativos.

Nessa fase, conceitos básicos de ecologia, como a inter-relação entre os vegetais e a fauna local e a importância dessas plantas para o clima do local e da cidade como um todo podem ser melhor explorados, preparando os alunos para um efetivo trabalho de campo.

Passeando no Matagal e aprendendo a sua importância

Espera-se que os alunos já tenham tido considerável interesse pela Botânica no desenvolvimento das atividades anteriores. Se este objetivo foi atingido, meus parabéns! Agora vem o grand finale. A visita efetiva a um remanescente de Cerrado ou Pantanal.

Essa certamente será a etapa mais complicada, pois exigirá comprometimento e certo auxílio financeiro por parte da escola, professor(es) e alunos. É necessário que tudo seja combinado com a máxima antecedência possível, para que as outras matérias não sejam grandemente prejudicadas. Uma excelente sugestão é que o projeto seja arquitetado da forma mais interdisciplinar possível, abrangendo e combinando o máximo de disciplinas, para que estas não venham a ser prejudicadas em detrimento da aula de campo de Ciências/Biologia – até porque a vegetação é, também, objeto de estudo de outras disciplinas, tais como Ecologia e Geografia. Ao final desta seção, seguir-se-ão algumas sugestões para uma integração interdisciplinar no contexto do trabalho de campo proposto:

* Português: origem etno-lingüística dos nomes populares das plantas e animais da região; levantamentos de lendas, histórias, contos e poesias regionais; explorar a língua latina (possível trabalho conjunto com professores de Inglês, Espanhol e outras línguas);
* Matemática: cálculo da área de figuras regulares e irregulares (p.ex., capões); estimativa da altura de árvores ou rochedos; média aritmética (p.ex., número médio de arbustos por metro quadrado) e ponderada, cálculo de superfície e volume;
* Geografia: localizar em mapas do Brasil e do estado a região explorada; identificar os principais cursos d’água da região; planejamento conjunto de professores e alunos das trilhas a serem percorridas; busca por padrões de erosão e efetuar cálculos pluviométricos e outros estudos relativos ao clima da região (Matemática); identificar a localização da área estudada no contexto da Bacia Hidrográfica a que pertence.
* História: execução de uma pesquisa histórica da região, focada tanto no aspecto lendário, quanto na ocupação pelos indígenas, colonizadores e na devastação da mata original (caso estes eventos tenham ocorrido na área); identificar as espécies vegetais que tiveram importância econômica no passado – por exemplo, a erva-mate e o quebracho-vermelho na Bacia do Apa.
* Ciências (Física e Química): física aplicada aos fenômenos naturais; pigmentos vegetais (Artes);
* Artes: elementos de desenho em 2D e 3D; rudimentos de ilustração científica e botânica; pigmentos vegetais (Química).

Convém discutir agora, como foco central deste artigo, como trabalhar estratégias para o estudo da Botânica em campo.

Uma excelente proposta apresentada em WWF-Brasil & Ecoar (2002, Guia de Atividades, pp. 29-33) é a atividade “Para que serve esta planta”. A atividade consiste em fazer com que os alunos pesquisem, por conta própria, plantas de uso comum na região, através de entrevistas com a população local e coletas e preparo de pequenas coleções botânicas. O professor deve acompanhar os alunos e instruí-los sobre como proceder na coleta e armazenamento do material coletado. É recomendado levar jornal, sacos plásticos e tesoura de poda. (Recomendamos a leitura do capítulo “Técnicas de coleta e preservação de material botânico” do livro Contextualizando a Botânica, parte integrante da Coleção Valorizando a Biodiversidade no Ensino de Botânica.) Ao retornar para a escola, o material botânico coletado deve ser armazenado em um local seco e fresco, para que os alunos possam estudá-lo subseqüentemente.

Outra idéia interessante é programar a visita a um herbário (uma “biblioteca de plantas”) de uma universidade ou outra instituição de pesquisa próxima. Se possível, verifique se o pesquisador responsável pela administração do herbário pode atender os alunos para fornecer explicações mais detalhadas.

Extraindo a poesia vegetal

Que tal fechar as atividades associando Botânica e Literatura? Síntese de Poesia, parte integrante da citada Coleção Botânica, é um livro de poemas totalmente dedicado às plantas em geral e às formações vegetais do Mato Grosso do Sul em particular. Ao final das atividades acima propostas os alunos podem desenvolver, durante as aulas de Ciências/Biologia, inclusive com a participação da disciplina de Língua Portuguesa, um conjunto de atividades relacionando o conhecimento científico acerca de determinada planta aos respectivos poemas. Aliás, a citação que inicia este artigo (M.J. Minhoto) recebe novos argumentos e cores no cordel Nem todo Rei tem Reinado, desse livro. Esse longo poema narrativo pode ser declamado pelos alunos, ou cantado como moda de viola, seguindo-se um trabalho de exploração / identificação dos conceitos e conteúdos (principalmente ecológicos e botânicos) contidos nesse poema. Provavelmente, a leitura e discussão desse poema permitirão um leque mais amplo de respostas [dos alunos] à questão “Como alguém pode gostar de algo tão inerte?”.

1 - Laboratório de Botânica, Depto. de Biologia, UFMS
2 - Laboratório de Prática de Ensino, Depto. de Biologia, UFMS

Bibliografia citada e recomendada

Almeida, S.P.; Proença, C.E.B.; Sano, S.M. & Ribeiro, J.F. 1998. Cerrado: espécies vegetais úteis. Planaltina: Embrapa-CPAC.

Ferri, M.G.; Menezes, N.L. & Monteiro, W.R. 1981. Glossário Ilustrado de Botânica. São Paulo: Nobel.

Joly, A.B. 1983. Botânica: Introdução à taxonomia vegetal. 6ª edição. São Paulo: Ed. Nacional.

Minhoto, M.J. “Ausência de músculos ou por que os professores de Biologia odeiam Botânica”. Disponível em:

Pagotto, T.C.S. & Souza, P.R. (orgs.). 2006. Biodiversidade do Complexo Aporé-Sucuriú: Subsídios à conservação e manejo do bioma Cerrrado. Campo Grande: Ed. UFMS.

Pestana, L.T.C.; Alves, F.M. & Sartori, A.L.B. 2006 (no prelo). Espécies arbóreas do paisagismo urbano do centro do município de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Campo Grande: edição do autor.

Pott, A. & Pott, V.J. 1994. Plantas do Pantanal. Corumbá: Embrapa-CPAP.

Silva, A.M.M. 2006. Árvores de Campo Grande: Um olhar diferente. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul.

Souza, P.R. (org.). 2006. Coleção Valorizando a Biodiversidade no Ensino de Botânica. Campo Grande: Ed. UFMS.

Souza, V.C. & Lorenzi, H. 2005. Botânica Sistemática: Guia Ilustrado para identificação das famílias de Angiospermas da flora brasileira, baseado em APG II. Nova Odessa: Instituto Plantarum.

Tamashiro, J.Y. & Sartori, A.L.B. 1999. Árvores das ruas e praças de Poços de Caldas. Poços de Caldas: ALCOA.

Thomas-Doménech, J.M. 1972. Atlas de Botânica. 3ª edição portuguesa. Rio de Janeiro, Ediciones Jover.

WWF-Brasil & Instituto Ecoar para a Cidadania. 2002. Cadernos de Educação Ambiental: Livro Texto; Guia de Atividades. São Paulo: Instituto Ecoar para a Cidadania / Brasília: WWF-Brasil.

Ficha de Coleta de Material Botânico

Adaptada de Pestana (2006) e WWF-Brasil & Ecoar (2002)

Nome do coletor: ________________________________________________________

Partes coletadas (raiz, flor, caule, folha, etc.): __________________________________
Nº. do exemplar: _____ Data da coleta: __/___/____

Local da coleta: _________________________________________________________

Informações Gerais da Planta

Nome popular da planta: __________________________________________________
Altura da planta: ___m

Porte da planta: □Erva □Arbusto □Árvore □Trepadeira □Cacto □Outro: _________

(marque com um √ ou × a alternativa mais adequada)

Desenho da planta inteira:


Observações:


Escala:

Folhas e Flores

Cheiro da flor: __________ Nº. de pétalas: ____ Cor das pétalas: __________________
Você viu algum inseto na flor? Qual? ________________________________________

Desenho das folhas:

Desenho das flores

Escala:

Escala:

Outras Informações...

Quando ferida, a planta solta “leite” (látex)? Tente descrevê-lo: ___________________

Para que esta planta é usada? □ Remédio □Produto de beleza □ Comida □ Adubo

□ Corante □No trato de animal □Espantar praga

□ Outro uso: ____________________________________
Busca no Site

Expediente - Política de privacidade - Fale Conosco © Copyright Rede Aguapé 2003
Tecnologia: Mais Empresas - Tecnologia a Serviço da Sua Informação